Posts de Janeiro, 2009

Negros

4 Janeiro 2009

Conversando entre amigos, falei do quanto acho estranho ver tão poucos negros em uma cidade que teve, proporcionalmente, a maior população escrava do país; infinitamente mais do que Salvador, São Luiz ou Rio de Janeiro – cidades negras.

Sim, estou falando de Campos dos Goytacazes. Se é que lhe interessa.

Um espírito-de-porco fez a torpe provocação:

- Você é um elitista. Só freqüenta o grand-monde e seus endereços protegidos. Por isso não vê negros.

Bem, pouco freqüento o grand-monde (o que quer que isso signifique). A bem da verdade, tenho uma atração irresitível por formas extremas de sobrevivência. De qualquer modo, a provocação do espírito-de-porco parece evidenciar o que a minha perplexidade apenas insinua.

Se é que você me entende.

O que me faz lembrar parte de um capítulo das memórias de Nelson Rodrigues (1967). Vejam:

A “democracia racial” que nós fingimos é a mais cínica, a mais cruel das mistificações. Quando andou por aqui, Jean-Paul Sartre fez cinco, seis ou dez conferências. E sempre que o gênio falava, era um sucesso tremendo. Gente em pé, sentada, pendurada, trepada etc. etc. Na última palestra, o filósofo perdeu a paciência. Vira-se para dois ou três brasileiros, que o lambiam com a vista, e perguntou: – “E os negros? Onde estão os negros?”.

Perfeitamente justa a irritação do francês. Até então, nas suas conferências, só vira uma platéia loura, alvíssima, de olho azul, caras sardentas. Repetiu: – “E os negros?”. Um brasileiro cochichou, no ouvido de outro, a graça vil: – “Os negros estão por aí, assaltando algum chauffeur“. Mas ninguém teve o que explicar ao visitante. E Sartre voltou para a Europa sem saber onde é que se metem os negros do Brasil.