O SESC é uma casa de shows tradicional em Campos, com capacidade para 800 espectadores. Cheguei às 19h30min. Conversando com o pessoal da Mojo, soube que Kadico chegara à tarde para a passagem de som e montou seu equipamento que ele próprio trouxera (sim, a banda tem roadies!). Nada do estrelismo usual entre as putas velhas da cena.
Andando pela casa, percebi que várias pessoas estavam esperando ansiosamente a lenda. Muitos, como o Márcio “Enciclopédia do Rock” Aquino, vieram a Campos só para o show; havia guitarristas de São Paulo e Rio, músicos da baixada e surfistas paranóicos, além de uma jovem sósia da Aracy de Almeida, com trajes indefiníveis (dito de outro modo, horrendos). O público era, em sua maioria, de até 25 anos, mas havia pessoas de todas as idades.
Com a casa lotada, a Mojo subiu ao palco. A platéia estava receptiva, às 20:30, para ver e ouvir o “Pai da Criança” em ação.
Lá estava ele, de jeans e o pulôver verde e preto oficial (como o resto da banda e o pessoal de apoio). Simpático, falou algumas palavras em nagô e iniciou com a enérgica “Johny Cash dirigindo seu Hot Rod“, do EP (em fase final de gravação) “Mojo“. Nas primeiras notas, senti que estava no lugar e momento certos. A Fender dourada com desenho de canhoto e cordas invertidas tinha “aquele” timbre. O estilo de Kadico é também bom aos olhos: tanto a mão direita como a esquerda desempenham muito: ritmo o tempo todo, deslizadas de uma ponta à outra das cordas e ocasionais firulas com o mindinho.
Poucas coisas são melhores do que ver uma lenda da música em ação. A impressão forte que ficou é que os 5 integrantes estavam curtindo muito a proximidade e a receptividade do público. Proximidade tamanha que Kadico e o baixista se comunicavam, através de olhares, com várias pessoas (algumas mulheres entre elas). E não tinham vergonha em assumir (rindo) alguns deslizes durante os vários improvisos musicais que aconteceram.
A comunhão entre público e banda resultou em um clima ótimo, e Kadico seguiu com músicas do EP. Ele tocou piston, bateria e até fez um solo de baixo, com o baixista fazendo a mão esquerda e ele percutindo as cordas do baixo COM BAQUETAS! Pra mostrar que não tem frescura, foram tocadas covers, como Smoke on The Water, Fever, House Of The Rising Sun, Third Stone From the Sun (do Hendrix, que ficou MARAVILHOSA) e outras. Na vez da antológica “Bukowski“, Kadico sumiu do palco e apareceu no meio do público, continuando a tocar. Um guitarrista amigo meu comentou que Kadico dava umas roubadas (não tocar todas as notas), mas quem se importa? Foi ele quem inventou o estilo e tem o direito de “roubar” o quanto quiser: por acaso alguém acha que Chuck Berry é ruim porque toca “sujo”? E, assim, seguiu, às vezes colocando riffs dos Ventures no meio de outras músicas, até que alguém gritou “Por uma vida menos ordinária“, quando Kadico perguntou “Who said that?” e dedicou a música ao cara. Foi assim até o final, quando, após breve pausa, a banda voltou para o bis, que durou mais uns vinte minutos, fechando quase duas horas de show.
Sobre os demais integrantes da banda: o baixista (“Biel” Araújo), que usa um Fender Precision idêntico à guita de Kadico (dourado com escudo branco), deve ter uns 40 e poucos anos, mas estava feliz como um moleque de 15, tocando muito e segurando a onda dos improvisos propostos por Kadico, quando iam inventando o som e “conversando” com o olhar. A todo momento ambos chegavam até a beira do palco, e sempre que alguém estendia a mão ganhava uma palheta (eles devem ter dado uma dúzia delas).
O batera (Daniel) era o mais novo dos cinco, furioso e com um timbre (especialmente nos tambores graves) irresistível. A certa altura do show, Kadico chamou Jill, uma garota (mulher dele, eu acho), e contando que fora ele quem a ensinara a tocar, fizeram uma música juntos. Eu ouvi dizer que ele costuma chamar seu irmão de 9 anos para tocar bateria em algumas músicas, mas acho que o garoto não foi ao SESC.
O vocalista, Diogo, esteve um tanto tímido no início, mas em pouco tempo recuperou o velho estilo demoníaco, ainda que tenha arriscado uns falsetes ambíguos.
Pedro Henrique, na guitarra, extremamente discreto, exibia o seu indefectível ar blasé, o que foi interpretado como tédio por novatos.
Encerrado o show, a banda permaneceu por cerca de uma hora ao lado do palco, conversando com os fãs, dando autógrafos e posando para fotos. Os caras são muito simpáticos e têm uma paciência infinita!
Bem, já quase 5 da madruga, fomos embora: a Mojo embarcou em uma Kombi fretada e seguiu para Travessão, onde teriam show no dia seguinte, e eu voltei para casa feliz, com a alma lavada, ainda com o timbre e riffs reverberando no cérebro, certo de que valeu a pena, e muito, dirigir 200 Km só para ver o show.
Que músico! Que exemplo! Kadico, com 60 anos de vida e 40 de rock, tem energia e bom humor invejáveis!