Da última vez em Campos, depois de anos sem respirar o nauseabundo odor de vinhoto que a tudo avilta, fui convidado a beber no Piccadilly Bar, suposto reduto da elite local.
O lugar não é dos piores; quase tolerável, não fosse freqüentado por boçais.
Preferi o balcão, de onde fugas são mais fáceis que sentado à mesa – a densa atmosfera, saturada de arrogância, frivolidade e perfume vulgar, pode levar espíritos mais delicados à náusea e asfixia. Serviram-me, por duas vezes seguidas, a bebida errada, mesmo depois de instruções enfáticas. A burrice pode ser tão selvagem que não há ânimo capaz de vencê-la. Desolado, fiquei ali bebericando o uísque que não pedira, enquanto meus ouvidos sangravam a cada atentado à elegância que podia ser ouvido em meio ao alarido incessante. O meu anfitrião, sujeito de poucas palavras, calado entrou e assim parecia obstinado a permanecer. Não o importunei.
De súbito, Albernaz Feitosa, homem de péssima catadura e metido a gordo, soi-disant perito em ipsilones tanto em prosa quanto em verso, veio adernando em minha direção como um navio-baleeiro em torna-viagem. Temi por perdigotos e bazófias em hálito ruim.
- Junte-se aos bons – disse-me ele, com olhar mortiço e voz encharcada -. Nós, intelectuais campistas, sempre nos reunimos aqui para um papo inteligente. Veja, lá estão o Cajuca Nepomuceno, o Cinorato Penalva, o Sindó Cruz, o Teteu Pederneiras, o … (soluço) … (arroto) … Ao lado do Cinorato, você deve se lembrar, é o Memé do Couto, inventivo diretor teatral – uma genuína prima donna.
- Já nos conhecemos, cidadão? – reagi com polidez glacial àquela atitude invasiva.
- Ora, ora, não se faça de rogado. Não aceito recusas. Vamos, vamos… – respondeu, enquanto me arrastava pelo braço.
Sobre a mesa, vestígios da devastação: quatro garrafas de uísque vazias e mais outra, quase intacta, a caminho do mesmo destino. Era um Black Bowmore Scotch, destilado em 1964 e engarrafado em 1995, que pode ser degustado pela bagatela de € 2.400. Fiz um aceno ligeiro ao grupo e em seguida me servi uma dose generosa daquele sedutor Black Bowmore. Companhias desagradáveis podem ser suportadas se houver bebida decente – eis no que acredito, acima de qualquer escrúpulo.
A conversa, de fato, era das mais eruditas:
Cajuca: Marx é uma impostura intelectual. As suas obras completas é nada comparadas a duas páginas de Ortega y Gasset.
Memé: Meu bem, assim também é covardia, né? Ortega y Gasset são bons – não nego – mas são dois. Compare Marx e Engels a Ortega y Gasset de modo a que as coisas fiquem em pé de igualdade.
Albernaz: E “Os Grotões”, e “Os Grotões”?
Cinorato: Me passa o uísque!
Sindó: Albernaz, é o que sempre digo: não há ensaio crítico de “Os Grotões” mais importante que o seu. Pedra de toque; inovador e definitivo.
Albernaz: E “Os Grotões”, e “Os Grotões”?
Teteu: Quem é aquele sujeito com cara de maçaneta?
Cajuca: Op. cit.
Memé: Ô, psiti, quer caflito? Hahahahahahahah!
Black Bowmore: Por piedade, salve-me dessa gente!
Cinorato: Apud Mário da Silva Britto…
Cajuca: Abud? Conheço o Abud Pneus. Esse Abud Mário não-sei-das-quantas, não sei quem é.
Black Bowmore: Aonde estão os cavalheiros desta triste província?
Albernaz: E “Os Grotões”, e “Os Grotões”?
Memé: Albernaz, você é um lindo!
Usando de astúcia, abandonei aquela nota de rodapé povoada de insanos: “Vejam, um jacaré!“. Enquanto olhavam para a mesa ao fundo, dei o fora dali, não sem levar o que restara – o que não era pouco – do sensível Bowmore.
Obs.: Os nomes dos distintos cavalheiros foram tomados emprestado da ficção de José Cândido de Carvalho, mas são pessoas reais e facilmente identificáveis.
