Archive for the ‘Entrevistas’ Category

Entrevista da Semana

23 março 2008

A atividade jornalística é toda uma fauna insólita. Nelson Rodrigues fez uma alucinatória descrição do ambiente, seres, modos e costumes de uma redação, em sua crônica “O Deus Numerado”, de 1969:

Vocês, que não conhecem os subterrâneos de jornal, não imaginam como uma redação é povoada de seres misteriosíssimos. (…) Há peixes azuis, escamas cintilantes, águas jamais sonhadas. De vez em quando, sai de uma caverna um monstro de movimentos lerdos, pacientes, etc. E passa um peixe sem olhos, que emana uma luz própria.

Lembra-me passagens de “Naked Lunch” (William S. Burroughs). Esta, por exemplo:

Adeptos de ofícios obsoletos e inconcebíveis balbuciando em etrusco, viciados em drogas ainda não sintetizadas, praticantes de sensibilização telepática, osteopatas do espírito, investigadores de infrações denunciadas por suaves jogadores de xadrez paranóides, servidores de multas fragmentárias escritas em hebefrênica taquigrafia acusando indescritíveis mutilações do espírito, bebedores do Fluido Pesado lacrado no translúcido âmbar dos sonhos.

Nelson nasceu e morreu nas redações dos jornais cariocas. Toda uma existência convivendo com esses seres fantásticos, enquanto redigia crônicas diárias e outros textos, trabalhando duro, tal qual um “remador de Ben-Hur”.

De lá para cá as mudanças não foram tantas e a essência de uma redação permanece. E os seus seres fantásticos. Um raro espécime é o nosso entrevistado da semana, o velho homem de imprensa, Sáurio Peçonha.


Ururau Irado: O seu nome é incomum. Trata-se de nome de batismo ou um pseudônimo?

Sáurio Peçonha: É mesmo o meu nome verdadeiro. Mas eu não sou o único com Peçonha aqui em Campos. A família é grande, inclusive com vários representantes ocupando posições na imprensa local, embora nem todos assinem ou sejam conhecidos pelo sobrenome. O clã dos Peçonha está radicado em Campos dos Goytacazes desde a época dos “Sete Capitães”. Um meu longínquo antepassado, Líbero Peçonha – o primeiro em Campos – foi positivo do Capitão Riscado.

UI: “Positivo do Capitão Riscado”? O que quer dizer isso?

SP: Vê-se logo que você é muito jovem e ignorante. “Positivo” é o mesmo que “próprio”, isto é, portador ou mensageiro. É sempre um homem de confiança do patrão. É o indivíduo encarregado de determinada missão. Leva e traz correspondências, mensagens, recados. Nem todos mereciam o privilégio de ser um positivo. Entretanto, acusaram Líbero Peçonha de tentativa de envenenamento do Capitão Riscado. Mas tudo não passou de intriga. Ficou provado que Líbero Peçonha era um empregado fiel, e jamais atentaria contra a vida de seu patrão.

UI: Não teria sido apenas um gracejo, com alusões maldosas à peculiaridade do nome de família?

SP: Não creio… Aquela gente era muito invejosa. Pretendiam mesmo ver a caveira de Líbero Peçonha. Pretendentes ao posto, sabe como é que é… De qualquer modo, descarto a hipótese de uma – como foi mesmo que você disse? – Ah, sim, “alusão maldosa”. Etimologicamente, peçonha não é necessariamente um atributo negativo. Vem do latim potione, que significa, em sentido restrito, hidrólio que contém medicamento dissolvido ou em suspensão, para ser administrado por via oral; ou, em sentido lato, qualquer bebida. De mais a mais, é sempre bom lembrar que o antídoto é formulado a partir do próprio veneno.

UI: Entendo. É surpreendente como aqueles homens rudes, de séculos passados, eram dotados de tão refinado conhecimento acerca de etimologia. Mas, e quanto ao seu prenome? Não é um tanto exótico?

SP: Não mesmo. É mais comum do que muitos outros que vemos por aí, como Atanagildo, Anacleto, Asdrúbal, etc. E olha que eu fiquei apenas na letra a. Sáurio, como se sabe, é um espécime dos sáurios, ou seja, subordem de metazoários, cordados, reptis, escamados, com pele revestida de escamas epidérmicas, osso quadrado móvel, vértebras geralmente procelas, órgão copulador duplo e reversível, e fenda cloacal transversal. São os lagartos em geral.

Nesse momento, o entrevistador, talvez sugestionado pela minuciosa descrição anatômica, julgou estar diante de um gigantesco lagarto, prestes a exibir a sua “fenda cloacal transversal” e o seu “órgão copulador duplo e reversível”, como quem busca atribuir maior veracidade ao já enfático depoimento. Quis duvidar que, o entrevistado, ao escandir “reversível” e “transversal”, deixara escapar uma língua muito esguia e bifurcada, de coloração verde-pardacenta, cujas extremidades setáceas vibraram na última sílaba. Atemorizado pela visão, o nosso repórter decidiu dar por encerrada a primeira etapa da entrevista, enquanto o entrevistado emanava eflúvios asfixiantes de sua pele escamosa – segundo nos relatou, ainda visivelmente transtornado.

Ururau Irado: Podemos começar?

(Sáurio apenas assentiu com um sorriso beatífico, enquanto descrevia cifras de madrigais com mais uma preguiçosa baforada.)

UI: Há quanto tempo na atividade jornalística?

Sáurio Peçonha: Comecei como foca em “O Imparcial”, nos idos de 1958. Desde então tenho me dedicado ao jornalismo, sem tréguas. Faça as contas.

UI: É uma longa trajetória. O Senhor, como testemunha ocular e protagonista da história do jornalismo local, deve ter relatos valiosos.

SP: De fato.

UI: Pois então?

SP: Sim?

UI: Conte-nos algum episódio marcante…

SP: Oh, sim! Certa vez, já como repórter em “O Imparcial”, fui destacado para cobrir a posse de Aderbal Manhães Riscado, que fora eleito prefeito com larga maioria dos votos. Comigo estava o Kib, que começava a sua brilhante carreira no fotojornalismo. A caminho da sede da prefeitura, ouvimos um alarido vindo das imediações do mercado, o que não nos despertou maiores interesses. Entretanto, ao dobrar a esquina, deparamo-nos com a origem da gritaria.

UI: O que vocês viram?

SP: O candidato derrotado, Samuel Balbi Lamego, voltara às suas atividades e estava anunciando as suas quinquilharias aos transeuntes.

UI: E então?

SP: Ora, seguimos adiante, em direção à prefeitura.

UI: E a posse?

SP: Magnífica. O cerimonial fez um trabalho impecável.

UI: Creio que é o bastante por hoje.

SP: Como quiser. Aceita uma bala de anis?

UI: Não, obrigado.

Enquanto o nosso repórter preparava-se para voltar à redação, Sàurio Peçonha serviu-se de um estranho ungüento acondicionado em um alabastro sobre a mesa de centro. Espalhou-o nas faces. “Pequenos cuidados com a cútis… Já não sou mais um garoto”, explicou. “Tem um odor característico… De que é feito?”, perguntou o repórter, visivelmente nauseado. “Gostou? Experimente e veja se descobre”, respondeu o entrevistado, aproximando o vaso do rosto do repórter. Este, em uma astuciosa manobra de sobrevivência, deixou cair o gravador e, ato contínuo, agachou-se para pegá-lo, desviando-se a tempo do infortúnio. Despediu-se ainda de cócoras e saiu em desabalada carreira do lugar, informando, durante a fuga desesperada, ter esquecido a marmita fora da geladeira.

Na próxima semana, revelações surpreendentes de Sáurio Peçonha sobre os bastidores da imprensa. Não percam!

Sáurio Peçonha é marca registrada da Ururau Entretenimentos Ltda.

Entrevistas Não-autorizadas

23 janeiro 2008

Algumas entrevistas da primeira versão deste blog:

Sexta-feira, Junho 27, 2003

JORGE ROCHA

Jorge Rocha
Foto: Dib Hauaji

Jorge Rocha, talentoso escritor, jornalista, bloguento e atuante em uma infinidade de outras possibilidades artísticas e culturais, é o nosso entrevistado da semana.

JR, como é mais conhecido na cena underground campista, nasceu numa comunidade fronteiriça, em Idaho, EUA, em 1973, e estudou na Universidade da Pensilvânia e no Hamilton College. Seu primeiro livro de contos foi publicado em Veneza, em 1993, tendo até o momento publicado mais de noventa volumes de poesia, contos, crítica e traduções – especialmente tradução de poesia.

Ainda adolescente, JR viveu primeiramente em Londres e a seguir em Paris, nos primeiros anos da década de 90. Mais tarde fixou residência em Campos, onde permanece. Foi também editor estrangeiro durante vários anos para a revista Poetry.

Fui entrevistá-lo em um loft e estúdio de um velho amigo, o fotógrafo César Ferreira. Começo do inverno, a temperatura já declinara. O entrevistador sentou-se numa cadeira ampla, enquanto JR se movia sem parar de uma cadeira para o sofá e de volta para a cadeira. As marcas da presença de JR no loft consistiam em duas valises e três livros: os Cantos, de Ezra Pound, um Confúcio e uma edição dos Sermões do Padre Antônio Vieira que estava relendo.

JR é um recluso, mas à noite costuma deixar o loft e vai jantar no Assis, caminhando pelo bairro com o vigor arrogante de um jovem. Com um imenso chapéu, uma bengala inflexível, um cachecol amarelo jogado displicentemente para trás e o casaco que arrasta às costas como uma capa, ele faz por merecer o epíteto de gentil demônio. De repente o seu talento para a mímica pode irromper, e uma gargalhada diabólica sacode suas generosas bochechas.

Durante a entrevista ele falou cuidadosamente, e as perguntas, algumas vezes, o deixaram exausto. “Já não sou mais um garoto“, costumava repetir sob qualquer pretexto.

Ururau: O seu nome está sendo cogitado para integrar o staff do novo diretor de redação (Miguelito, o chimpanzé) do “Falha do Manhães”…

JR: Cada macaco no seu galho.

Ururau: Isto é um sim ou um não?

JR: Isto é um símio. Simão, o macaco; Miguelito, o chimpanzé. Não, obrigado. Não conheço o Miguelito. São rumores infundados.

Ururau: Ele afirma ter enorme admiração intelectual por você…

JR: Quem não a teria?

Ururau: Por que você tirou o cavanhaque? As mulheres gostavam. Diziam-se atraídas pela aparência de cafajeste que o cavanhaque lhe emprestava – tipo gigolô porto-riquenho…

JR: O cavanhaque compunha um personagem. Estou mergulhado em uma nova performance.

Ururau: Poderia nos falar sobre isso?

JR: Ainda é cedo. Final de julho será oportuno.

Ururau: OK. Aguardaremos no regato. E quanto aos outros projetos?

JR: O de sempre. Tenho me dividido entre incontáveis formas de intervenção.

Ururau: Você é um espírito irrequieto e prolífico. É possível encontrar em Campos interlocutores à altura?

JR: Próxima pergunta.

Ururau: Algum escritor local que mereça ser mencionado?

JR: O Vitor Menezes tem um texto correto, mas contaminado por vícios acadêmicos. Vitor tem enorme talento, mas deve romper os grilhões que o aprisionam a um passado com odor de naftalina.

Ururau: Há alguém que transgrida?

JR: Nesta terra de ninguém, transgressão só das regras elementares da convivência civilizada.

Ururau: Alguma tentativa de explicação para a indigência cultural que assola esta planície inóspita?

JR: Talvez seja algo irremediável. Algum atavismo; o clima decerto exerce alguma influência. Uma maldição dos ancestrais não está descartada.

Ururau: Por que os jornais de Campos escrevem tão mal?

JR: Tudo começou com uma idéia nobre, mas com um terrível erro de origem. Trata-se do programa “Meu Primeiro Emprego”, que contou com o apoio irrestrito da imprensa local. Ocorre que em vez de oferecerem postos de trabalho aos egressos dos cursos de jornalismo, o foco foi deslocado para um público-alvo de maior vulnerabilidade, que é aquele formado pelos egressos dos cursos de jornalismo.

Ururau: Finalizando, por que o nome “Urgente!” para o blog no qual você escreve? Confesso não ter percebido urgências…

JR: Todos os colaboradores sofrem de incontinência urinária. Nem sempre temos grana para fraldas geriátricas. Portanto, as notas quase sempre são publicadas às pressas, segundos antes de nos precipitarmos ao banheiro.

Ururau: Muito obrigado pela entrevista.

JR: Não por isso. Paga uma breja aí, ô Uóli.

Terça-feira, Julho 01, 2003

VITOR MENEZES

Vitor Menezes
Foto: Dib Hauaji

Jornalista, sociólogo e escritor, Vitor Menezes, com o perdão do lugar-comum, dispensa apresentações. Quem não o conhece de blog, da imprensa ou de sua magnífica produção literária, certamente aprendeu a reverenciar a sua vasta erudição e sofisticada inteligência, na fogueira de vaidades que é o mundo acadêmico.

Conheço-o desde que publiquei um ensaio sobre o seu conto “A Volta do Coronel Ponciano”, uma estupefaciente obra-prima. Ele leu o ensaio e enviou-me um e-mail simpático. Desde então tem congestionado a minha caixa postal com toneladas de originais, sugerindo-me outros ensaios.

Aos menos atentos, trata-se de um senhor de meia-idade, de lustrosa calva, modos afáveis, facilmente encontrado no bistrô do Assis, onde se pode degustar finos acepipes, acompanhados das mais raras cervejas e aguardentes do norte e noroeste fluminense; ambiente de colóquios do mais elevado nível intelectual. Lá, até mesmo o proprietário do estabelecimento é um schollar. Assis, econômico nas palavras, não faz alarde de seus interesses extra-empresariais. Poucos sabem que as obras completas de Heidegger estão sendo traduzidas por ele, a partir dos originais em uma obscura língua morta.

Vitor Menezes é o segundo “convidado” da série de entrevistas não-autorizadas deste blog. Por ter sido citado pelo primeiro entrevistado – Jorge Rocha -, concordamos com os seus inúmeros e veementes pedidos de “direito de resposta”.

Conversamos no bistrô do Assis, durante todo o dia, interrompendo apenas para uma rápida e frugal refeição, especialmente preparada pelo próprio Assis. Fui tratado com enorme fidalguia. As maneiras de Menezes – corteses, suaves e atenciosas – combinam com a sua aparência: roupas discretas e elegantes cuidadosamente escolhidas, ar de um tranqüilo e self-assured intelectual europeu em visita ao terceiro-mundo. Todavia, sob a aparência afável há um espírito que não tolera imprecisões e desfere golpes letais contra diferenças de opinião. Em alguns momentos mais tensos da entrevista, Menezes, no calor da refrega, deixou escapar algumas reações hostis.

Ururau: O senhor ficou magoado com as críticas de Jorge Rocha ao seu estilo?

Vitor Menezes: Claro que não (risos). O JR – todos sabem disso – sofre da doença infantil da transgressão.

Ururau: Trata-se de um sintoma extemporâneo?

Vitor Menezes: Sem dúvida. JR, como ele próprio não se cansa de repetir, já não é mais um garoto. Não tem mais vitalidade para ficar dando mosh em shows de punk rock, sob pena de voltar para casa amparado por algum amigo piedoso, antes que seja pisoteado pela horda ensandecida.

Ururau: A maturidade é necessariamente conservadora?

Vitor Menezes: A maturidade não é, em si mesma, conservadora. Conheço adolescentes, e nem tanto – digamos, pessoas que mal chegaram aos 20 -, que mais parecem criaturas da época em que gigantescos répteis vagavam pela terra. Volto a dizer: Já não temos mais – eu e o Jorge Rocha – a elasticidade necessária para um mosh. O que não significa afirmar que eu seja uma múmia reacionária, a exemplo do João Paulo Arruda, o adolescente provecto.

Ururau: O senhor se considera ainda um homem de ideais?

Vitor Menezes: O idealismo – concordo com William F. Buckley, Jr -, é necessário; contudo, em algum momento o seu custo torna-se proibitivo. Por outro lado, entendo a parcimônia como uma virtude que deve ser cultivada com obstinação. Portanto, procuro ser cauteloso em minhas doses diárias de idealismo. Toda espécie de dependência é nefasta. Não importa que a droga seja punk rock, cocaína ou o idealismo. Jung, em outras palavras, afirmou o mesmo.

Ururau: Recentemente, o fotógrafo César Ferreira descreveu o senhor como um ex-jornalista, politicamente correto, educado e perfumado. O que há de verdade e provocação nessa descrição?

Vitor Menezes: O César, cuja sanidade tem estado sob suspeita, talvez não saiba que certas coisas são para toda a vida. Uma vez jornalista, sempre jornalista. Carregamos todos os cacoetes do ofício, até o túmulo. Por exemplo, a habilidade olfativa: sempre que sinto algo de podre no ar, sou capaz de seguir o rastro fétido de olhos vendados.

Mas a ignorância do César é compreensível e perdoável. Um fotógrafo não é exatamente um jornalista. Imagine uma orquestra sinfônica: você deve se lembrar daquele homem que, durante todo o concerto, ocasionalmente faz soar os pratos, e volta à sua insignificância. Ele não é exatamente um músico. Está lá, entre os músicos, mas não é um deles. Assim é o fotógrafo, que prefere ser chamado de repórter-fotográfico e gosta de pensar que o seu trabalho é uma arte, denominada fotojornalismo. Bem, se isto é benéfico para a auto-estima deles, deixemos que continuem acreditando.

Quanto a ser politicamente correto, creio que ele se refere à minha capacidade de tolerância. Jamais me levantaria de uma mesa de bar caso o César Ferreira nela se sentasse. É óbvio que o meu respeito à diferença não a elimina. Só tento conseguir uma convivência pacífica, mas um pacto entre cavalheiros exige que as partes os sejam.

Quanto à sórdida acusação de “educado”, confesso que é muito fácil ser gentil com os simplórios.

Ururau: Entendo. A propósito, percebo que o senhor tem especial predileção por perfumes… (De fato, o entrevistado parecia ter tomado um demorado banho de imersão com uma variedade luxuriante de perfumes)

Vitor Menezes: Engano seu (visivelmente irritado). Só uso perfumes que ganho de amigos e familiares. E mesmo assim, para não ser indelicado. Ocorre que eu sou um homem asseado; primo pela higiene. Ao passo que o César Ferreira é capaz de passar duas semanas sem banho e com a mesma roupa ensebada. Veja como a tolerância é um exercício penoso: a proximidade física do César Ferreira pode ser extremamente desagradável, mesmo para um olfato treinado como o meu. Entretanto, jamais o enxotei, como a um cão sarnento. Suporto, com estoicismo incomparável, toda sorte de degenerescência da raça humana, à qual – constrange-me admitir – também pertenço.

Ururau: O que o senhor está usando agora?

Vitor Menezes: Hoje é segunda-feira, não é mesmo? Deixe-me ver… Ah, sim… Ora, apenas um toque muito discreto de “Revenge”.

Ururau: Presumo então que o senhor tenha uma fragrância para cada dia da semana…

Vitor Menezes: Na verdade, uma para cada dia do mês. Mas em ocasiões especiais, como esta entrevista, uso algo apropriado.

Ururau: O senhor se considera um homem vaidoso?

Vitor Menezes: Não mesmo. Sou o que poderia ser definido como um low profile.

Ururau: E quanto à vaidade intelectual? Acusam-no de ter uma atitude de superioridade complacente para com os seus pares.

Vitor Menezes: Mentira! Mil vezes mentira! (encolerizado) Quem disse isso? Decerto mais uma das difamações do fotógrafo César Ferreira… (recobrando o fôlego) Guarde isto, meu caro Ururau: (longa pausa) o que o mundo precisa é de mais gênios humildes. Lamentavelmente, hoje restam poucos de nós.

Ururau: Temos um grandiloqüente epílogo, senhor Wilde, digo, senhor Menezes. Foi uma honra entrevistá-lo.

Vitor Menezes: Estou certo que sim.

Sábado, Julho 05, 2003

JOÃO PAULO ARRUDA

João Paulo Arruda
Foto: Dib Hauaji

Estava redigindo o último post quando um colega, da mesa ao lado me diz: – “Linha seis. É um tal de João Arruda, do Jornal Extra”. Pensei: “O João Paulo Arruda? Será uma proposta de trabalho no conglomerado?”. Um telefonema do Arruda é sempre auspicioso. Da última vez, ofereceu-me uma interessante posição em uma das subsidiárias do grupo, mais exatamente a de ombudsman em uma das empresas do braço alimentício da organização, a tradicional “Biscoitos Globo”. Infelizmente, a oportunidade não prosperou. Não abri mão de uma condição indispensável à minha contratação: o nome deveria ser mudado para “Biscoitos Grobo”, por entender que, desta forma, o produto poderia conseguir maior identificação em seu mercado cativo e potencial, aproximando-se do linguajar vivo das ruas. Afinal, pouco importa que insistam em outro nome na embalagem: todos irão continuar chamando-o de “Biscoito Grobo”, seja salgado ou doce.

Ururau: Alô… Arruda?

João Paulo: E aí, jacaré de uma figa? Sacaneando os jornais campistas?

Ururau: Nem tanto, nem tanto…

João Paulo: Seguinte, Ururau: Eu também faço parte do “Urgente!”.

Ururau: Tô ligado. Estive acompanhando a sua catilinária contra as perigosas donas-de-casa. Cuidado, brother; sob ameaça, elas conseguem ser muito articuladas e costumam surpreender o oponente com um poder de fogo insuspeitado.

João Paulo: Já posso vê-las daqui, atrás de barricadas, brandindo rolos de pastel… Mas eu não liguei para falar sobre donas-de-casa. O lance é o seguinte, Ura: o Jorge Rocha e o Vitor Menezes, ambos do “Urgente!”, foram entrevistados nesse blog insolente. Pergunto se há alguma restrição à minha pessoa…

Ururau: Longe disso, Arruda. Estive, durante os últimos dias, tentando reiterados contatos com o seu id, mas sem êxito. Por acaso você o exilou em algum…

João Paulo: Escuta aqui seu jacaré retardado, aqui quem fala é o id do João Paulo Arruda. Ego tem estado ocupado em complexas circunvoluções autofágicas.

Ururau: Oh, sim… Mil perdões! Pois não, pois não; em que posso ser útil?

João Paulo: Para com essa merda, Ururau. E a entrevista, sai ou não sai?

Ururau: Quando você achar melhor. Mas, escuta, tem certeza de que uma entrevista neste blog não irá comprometer a sua reputação?

João Paulo: Tsc, tsc… Que canastrão… Você bem sabe que a sua vitrine é altamente promocional. O JR e o Vitor que o digam. Eles já não sabem como evitar o assédio das editoras.

Ururau: Lamento o transtorno. Não tive a intenção…

João Paulo: Não importa. O fato é que você tem um faro inato para novos talentos.

Ururau: Novos talentos? Jorge Rocha e Vitor Menezes já são dois decanos da literatura, com incontáveis volumes da fase da maturidade publicados. Na verdade, começaram a escrever os seus respectivos “De Senectute”. O último revelador de novos talentos foi Verlaine, ao acolher Rimbaud aos 16 anos e já com suas obras completas. Só estou engrossando o coro de uma unanimidade reverente.

João Paulo: Mas chega de papo furado e dê início à entrevista.

Ururau: Você não percebe que a entrevista teve início antes mesmo que eu atendesse ao seu telefonema?

João Paulo: Que seja. Então comece a fazer perguntas inteligentes.

Ururau: Não espere tanto. Ou melhor, não espere por tanto. Você concorda com a afirmação de que o jornalista é um especialista em generalidades?

João Paulo: Se um especialista é alguém que sabe cada vez mais de cada vez menos, resulta que a assertiva contida em sua indagação encerra um paradoxo inconciliável. Além disso, temos excelentes jornalistas especializados, cada qual em uma área específica de conhecimento, a exemplo do jornalista econômico, com atributos suficientes para a reflexão em pé de igualdade com os “verdadeiros” economistas.

Ururau: Todavia, não faltará quem afirme que um jornalista nada sabe de economia, uma vez que, na melhor das hipóteses, sabe tanto quanto um economista. Outros, mais virulentos ainda, dirão que um jornalista econômico é o legítimo especialista em generalidades. Volto à assertiva: há menos consistência lógica que sarcasmo. O que não significa que aquela afirmação seja falsa (ou verdadeira).

João Paulo: Há muito de inveja. E medo. Eis uma combinação com elevada toxicidade. Mas os seus portadores são inofensivos: morrem antes, contaminados pelo próprio veneno. O máximo que nos cabe é redigir o obituário (gargalhadas convulsivas).

Ururau: Você acredita no poder da imprensa?

João Paulo: Nada escapa aos desígnios do Altíssimo…

Ururau: Não esperava enveredar por searas metafísicas… Sequer o imaginava um místico…

João Paulo: Que mané metafísico, Ururau!? Do que você está falando?

Ururau: Ué, você mesmo o disse: “nada escapa aos desígnios do Altíssimo”…

João Paulo: Oh, é isso? (gargalhadas indulgentes) Referia-me ao Dr. Roberto.

Ururau: Ufa! Fico aliviado… Mas, Arruda, fale sobre a experiência de um jornalista de província em um jornal da metrópole. No início, e a partir da sua atividade na imprensa campista, você teve de enfrentar muitos obstáculos? Sofreu algum tipo de preconceito? Principalmente, fale sobre as diferenças mais importantes entre os dois mundos.

João Paulo: Bem, uma das diferenças mais importantes, e que me causou enorme assombro, é que os jornais do Rio pagam salários aos seus empregados. Mas registre o seguinte: não estou nadando em dinheiro. Corro o risco de, em minha próxima ida a Campos, ser importunado por pedidos de empréstimo. Você bem sabe que jornalistas têm uma péssima reputação e não são exatamente a clientela dileta dos credores em geral.

Ururau: Entendo. Mas e quanto ao resto? Refiro-me aos obstáculos e preconceitos…

João Paulo: Nada digno de nota. De um modo geral, saindo de Campos para o Rio, aprendi que a imprensa não é uma indiferenciada manada de semi-analfabetos atropelando uma minoria cada vez mais escassa de criaturas esclarecidas.

Ururau: Para finalizar, você poderia nos privilegiar com algum furo de reportagem?

João Paulo: Anote aí, Ururau: Acabei de desencavar mais uma música inédita do Raul Seixas. A diferença é que, desta vez, trata-se de letra e cifra psicografadas pelo copidesque do Extra. Pensei até em uma nova página para o segundo caderno: EXTRAordinário! Há farto material.

Ururau: Demorô!